12 agosto 2016

António Aragão: A urgente necessidade de proteger o Património da Madeira

 

«E se a cidade do Funchal é vítima impotente duma espécie de destruição sistemática, que devemos dizer também do que se passa em toda a Madeira? Realmente, se o património urbano do Funchal posterior à época manuelina, já profundamente delapidado, caminha para uma breve extinção, outro tanto devemos apregoar quanto às construções tradicionais da Madeira e Porto Santo, as quais constituem as peças mais valiosas do património rural insular e que nos nossos dias rapidamente estão morrendo por toda a parte.»

António Aragão

(in Para a História do Funchal, 2ª edição revista e aumentada, by António Aragão).

António Aragão e a Defesa do Património Insular, by Jorge Valdemar Guerra, in Margem, Câmara Municipal do Funchal, Maio de 2011

O DESCALABRO DE PORTUGAL



O descalabro de Portugal

Embora actualmente residindo fora da Madeira, a minha conexão à minha terra natal nunca se perdeu. É com profunda tristeza que assisti aos devastadores incêndios que assolaram a Madeira e especialmente a sua capital o Funchal. É com profunda tristeza que tive conhecimento de mortos, feridos graves e tantas pessoas que ficaram sem nada. É igualmente com profunda tristeza que vi em imagens tantos Madeirenses combatendo os incêndios apenas com a mangueira dos seus quintais, porque os bombeiros não tinham meios suficientes, nem humanos nem principalmente técnicos, para fazer face a fogos de maiores proporções. Ouvi mesmo um bombeiro Madeirense desabafando que eram principalmente os meios técnicos que faltavam, pois de que é que servia mais pessoal se não existem viaturas bastantes para os meios humanos poderem utilizar... Na hora da crise os mesmos políticos - mesmo que com diferentes nomes - vêm sempre dizer que os bombeiros são heróis, mas não passa disso mesmo... palavras ocas sem efeitos práticos. Aquele género de políticos que esgrimam as palavras para iludirem o povo, quando são eles mesmos que, persistentemente, desvalorizam o papel fundamental que os bombeiros desempenham na sociedade. Não lhes dão um salário condigno, não lhes dão meios técnicos suficientes, não lhes dão a formação contínua que necessitam. Na mesma altura que a Madeira ardia, ali mesmo ao lado, numa das ilhas do Arquipélago das Canárias, deflagrava também um enorme incêndio florestal. Só que este fogo nunca chegou a nenhuma grande localidade. Só que este fogo foi rapidamente controlado. Porque este fogo foi eficazmente combatido. Porque, ao contrário da Madeira, parte de Portugal, o incêndio em La Palma, parte de Espanha, enfrentou um combate altamente profissional por parte de corporações de bombeiros fortemente equipadas com todas as mais modernas tecnologias. Na Madeira, onde as viaturas terrestres, já por si poucas, não chegavam, nas Canárias numerosos hidroaviões e helicópteros dos bombeiros Espanhóis combatiam, com toda a eficiência, o enorme incêndio que deflagrava. Qual então pois a grande diferença? A Madeira faz parte de Portugal e as Canárias são parte de Espanha. Toda a diferença está neste ponto. O meu falecido Pai, António Aragão, que tanto lutou pela preservação do Património Cultural da Madeira, por numerosas vezes me confessou que se a restauração da independência nunca se tivesse dado a Madeira teria uma qualidade de vida, em tudo, muito superior. De facto, como claramente se vê, um país, como Portugal, que não investe naquilo que realmente interessa (Protecção Civil, Justiça, Cultura, Ciência, Ambiente, Educação, Emprego, Arte, etc.), é um país condenado ao fracasso. Independência é para fazer melhor. Não para fazer pior.

Marcos Aragão Correia.

INCÚRIA

 

Incúria

O Funchal foi uma cidade que cresceu desordenadamente nas suas periferias altas

 Arquitecto Rui Campos Matos, Presidente da Ordem dos Arquitectos - Madeira


No momento em que escrevo estas palaras, está ainda por fazer o balanço dos estragos causados pelo fogo que vai lavrando nas zonas altas do Funchal e, todavia, é já possível lamentar a incúria que o alimenta. Os incêndios não são um problema novo na história da capital do arquipélago. Em 1470,  o Infante D. Fernando, governador das ilhas atlânticas, determinou que as casas da florescente Rua dos Mercadores, se «cobrissem de telha», já que na sua grande maioria, eram construídas em madeira e cobertas de palha. Aparentemente, de pouco terá servido esta determinação, porque no Verão de 1593, numa noite em que o vento leste soprou quente e seco como uma labareda, um violento incêndio devastou a baixa, tendo queimado, em apenas 4 horas, como refere António Aragão na sua história do Funchal, cerca de 154 casas, «as melhores e mais principais de toda a cidade». A devastação foi tal que o episódio sobrevive na toponímia local dando nome às ruas da Queimada de Baixo e da Queimada de Cima.
Ao longo do século XVII, as casas em madeira e colmo foram sendo progressivamente substituídas por construções de pedra e cal com cobertura em telha, tornando mais difícil a propagação das chamas. Ardia pontualmente, aqui ou ali, uma casa sobrada, mas a ossatura de alvenaria ficava de pé e o corpo da cidade sobrevivia. Os incêndios continuaram, porém,  a devastar a periferia, despojada da sua vegetação endémica e mais resistente ao fogo. O padre Augusto da Silva dá-nos conta do monstruoso incêndio que no verão de 1919, varreu o perímetro do Funchal: «no Monte e em São Roque, tomou proporções verdadeiramente assustadoras, abrangendo uma área de alguns quilómetros e ameaçando destruir um grande número de habitações». As semelhanças com o que se passou nestes últimos dias é gritante. Será que nada pode ser feito fazer para prevenir este tipo de tragédias? Pode.
Trata-se, em primeiro lugar, como, aliás, já referiu o Presidente da República, de um problema de ordenamento do território e planeamento urbano. O Funchal foi uma cidade que cresceu desordenadamente nas suas periferias altas: acessos difíceis, arruamentos estreitos, construções em contacto com florestação desadequada. Teria sido necessária uma persistente política de requalificação urbana destas áreas. Infelizmente, pouco ou nada foi feito nas últimas décadas. Em segundo lugar, ficou claro que é através dos edifícios devolutos (alguns propriedade do Governo Regional...), com os logradouros abandonados e os telhados semi-arruinados, que o fogo penetra na antiga cidade de intramuros, como agora aconteceu na freguesia de São Pedro. Infelizmente,  nunca existiu, no Funchal, uma verdadeira política de reabilitação urbana.
Por último: quando a situação é de emergência é bom que exista um comando centralizado que fale a uma só voz através dos meios de comunicação social, mantendo a população informada e dando instruções precisas, a intervalos regulares,  sobre os procedimentos a tomar. O que ouvimos, porém, foi uma desconexa cacofonia a que não é alheia a fome de protagonismo político.  Exceptuando as condições atmosféricas, nada disto é inevitável. Damos-lhe o nome de incúria. 


in Diário de Notícias Madeira, 12 de Agosto de 2016.

04 agosto 2016

Vida e Obra de António Aragão (resumo biográfico)



António Aragão
 
Pintor, Escultor, Historiador, Investigador, Escritor e Poeta, António Aragão foi um dos maiores vultos da Cultura portuguesa, do século passado até aos dias da sua morte física acontecida em 2008, e também na opinião de vários especialistas, a maior personalidade de sempre da Cultura Madeirense.

António Manuel de Sousa Aragão Mendes Correia nasceu em Portugal, na ilha da Madeira, em São Vicente, a 21 de Setembro de 1921. Faleceu no Funchal a 11 de Agosto de 2008. Cedo quebrou as barreiras do isolamento geográfico para alcandorar-se aos palcos académicos e depois ganhar, com elevado mérito, estética, arte e técnica, um lugar de vanguarda na Cultura portuguesa.

Licenciado em Ciências Históricas e Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e em Biblioteconomia e Arquivismo pela Universidade de Coimbra. Estudou Etnografia e Museologia em Paris, sob a orientação do Director do Conselho Internacional de Museus da UNESCO. Cursou no Instituto Central de Restauro de Roma, onde se especializou em restauro de obras de Arte e estagiou no laboratório de restauro do Vaticano. Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris e Roma.

Homem de criatividade rica, irrequieto, polémico, inconformado, por vezes excêntrico até, deixou a sua marca pessoal indelével por onde passou. Era difícil não dar por ele quando metia mãos à obra, quer fosse na investigação da história e da etnografia, quer quando esculpia, pintava ou escrevia. A proporção do acervo que legou a Portugal, e em particular à Madeira, é muito mais rico, em quantidade e qualidade, do que o reconhecimento e merecimento que devia ter recebido da região e do país. Desse ponto de vista, ainda está por fazer-se a verdadeira homenagem a António Aragão, apesar de, ainda em vida e num gesto essencial, ter recebido da Câmara Municipal do Funchal uma rua da cidade com o seu nome.

Foi Director do Arquivo Regional da Madeira, e também Director do Museu da Quinta das Cruzes (Funchal). Era irmão de Ruth Aragão de Carvalho, falecida esposa do actor Ruy de Carvalho. É pai de Marcos Aragão Correia, conhecido Advogado, Activista e Autor.

Como investigador da História da Madeira, publicou: Os Pelourinhos da Madeira, Funchal, 1959; O Museu da Quinta das Cruzes, Funchal, 1970; Para a História do Funchal - Pequenos passos da sua memória, Funchal, 1979; A Madeira vista por estrangeiros, 1455-1700, Funchal, 1981; As armas da cidade do Funchal no curso da sua História, Funchal, 1984; Para a História do Funchal - 2ª Edição revista e aumentada, Funchal, 1987; O espírito do lugar - A cidade do Funchal, Lisboa, 1992.

Dos estudos realizados destaca-se as escavações no lugar do Aeroporto, onde se erguia antes o Convento quinhentista de Nossa Senhora da Piedade, Santa Cruz, 1961.

Das escavações feitas resultou o levantamento da planta geral deste Convento Franciscano e o estudo das suas características tipológicas, além da exumação de variado espólio, do qual se destaca grande diversidade de padrões de azulejaria hispano-mourisca ou mudéjar, proveniente do Sul de Espanha, e também múltiplos exemplares de azulejaria portuguesa seiscentista e de setecentos, assim como elementos primitivos em cantaria lavrada – portais do convento, janelas, arco triunfal da igreja, condutas de águas, lajes tumulares, pavimentos, hoje depositado nos jardins da Quinta Revoredo, Casa da Cultura de Santa Cruz.

Todos os trabalhos foram devidamente documentados com plantas rigorosas, desenhos e fotografias. Este trabalho encomendado pela Junta Geral do Distrito do Funchal foi entregue nesta Instituição e, por sua vez, na época, depositado, em parte, no Museu Quinta das Cruzes.

Na área da Etnografia efectuou amplas recolhas ao nível da música tradicional da Madeira e do Porto Santo, em 1973, em colaboração com o professor e músico Artur Andrade, com divulgação em 2 discos LP em 1984.

Na área da literatura participou em acções colectivas, antologias, e outras manifestações significativas: Poesia experimental, 1964 e 1965 (revista de que é co-fundador); Visopoemas, 1965; Ortofonias (com E.M. Melo e Castro), 1965; Operação I, 1967; Hidra I, 1968; Hidra 2, 1969; Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, 1971; Antologia da Poesia Concreta em Portugal, 1973; Antologia da Poesia Visual Europeia, 1976; Antologia da Poesia Portuguesa, 1940-1977, 1979; Antologia da Poesia Surrealista em Portugal; OVO/POVO, 1978 Lisboa e 1980 Coimbra; PO.EX. 80, Galeria Nacional de Arte Moderna, Lisboa, 1980 e 1981; Filigrama. (Revista de expansão internacional), co-fundador, 1981, Funchal; Líricas portuguesas. Antologia, 1983; Poemografias, 1985; I Festival Internacional Poesia Viva, 1987, Figueira da Foz; Poesia: outras escritas, Novos suportes, 1988, Setúbal; Electroarte, Vala Comum. Lisboa. 1994.

A nível internacional realça-se a sua participação em Sevilha, 1980; em 1982, Itália e Brasil; 1983, Cuenca; 1984, Comuna de Milão, Itália; 1984, São Francisco, U.S.A. e Espanha (Barcelona); 1985, Israel e New York; 1986, México e Sevilha; 1987, México e França; 1989, Itália e Paris; 1990, Siegen, Alemanha, México e Washington.; e 1992, Madrid.

Colaborou em diversas manifestações de Mail-Art and Exchange, divulgando os seus trabalhos em revistas da especialidade.

Escreveu no Comércio do Funchal; Línea Sud, Nápoles; Letras e Artes, Lisboa; Express; Colóquio-Artes / Fundação Calouste Gulbenkian; Diário de Notícias, Lisboa; Comércio do Porto; Espaço Arte, I.S.A.P.M.; Diário de Notícias, Madeira.

Na ficção destaque para: Romance de Izmorfismo, 1964; Um buraco na boca, 1971; Os 3 Farros (com Alberto Pimenta), 1984; Textos do Apocalipse, 1992.

Na área da poesia referência para: Poema primeiro, 1962; Folhema I e Folhema 2, 1966; Mais excta mente p(r)o(bl)emas, 1968; Poema azul e branco, 1971; Os Bancos, 1975; Poesia espacial POVO/OVO (áudio-visual), 1977; Metanemas, 1981; Pátria, Couves, deus, etc, com Tesão, Política, Detergentes, etc, 1993; Joyciaba. In Joycina, 1982.

Para teatro escreveu o Desastre NU, em 1980, que foi Prémio Nacional.

Como artista plástico destacou-se tanto na pintura como na escultura. Na área da escultura realce para a Santa Ana, em cantaria rija, na Câmara Municipal de Santana, 1959; o Padrão das Descobertas - Monumento alusivo ao V centenário da morte do Infante D. Henrique, escultura em cantaria rija, integrada no projecto do arquitecto Chorão Ramalho, Porto Santo, 1960; Baixos–relevos, 2 grandes painéis em cerâmica policroma, alusivos à faina marítima e à actividade agrícola, Mercado Municipal de Santa Cruz, 1962.

Na área da pintura tornou-se conhecido desde a década de 40, pelas diversas temáticas abordadas e exploração de técnicas diferenciadas. Realizou várias exposições em Portugal (Galeria Divulgação, Quadrante, Galeria III, Galeria Diferença, Fundação Calouste Gubenkian – II Exposição de Pintura Portuguesa) e no estrangeiro – Espanha (Madrid, Sevilha, Barcelona); México; França (Paris); Itália (Roma e Turim); encontrando-se representado em muitas colecções particulares e oficiais em numerosos Países, inclusivamente na Fundação Serralves em Portugal.

António Aragão concretizou um projecto artístico contemporâneo baseado em novas tecnologias, numa casa que lhe pertenceu, situada na Lapa, em Lisboa. O projecto enquadrava uma "associação de educação popular" com uma galeria de arte vanguardista, ao qual foi atribuído o MECENATO pela Secretaria de Estado da Cultura.

Antes da doença prolongada de que padeceu até à sua morte, António Aragão, de volta ao Funchal, pintou os seus últimos quadros, que constituíram uma série à qual intitulou "Os monstros", uma verdadeira crítica corrosiva à hipocrisia dominante na sociedade.

As últimas exposições individuais de António Aragão foram realizadas na Madeira.

Comissariadas por António Rodrigues, a antepenúltima, em Abril de 1996, na Casa da Cultura de Santa Cruz, integrou 16 dos seus últimos quadros, e ainda uma selecção retrospectiva de 13 trabalhos, em diferentes técnicas, realizados nas décadas de 50 e 60 do século XX. A penúltima, Exposição Retrospectiva, teve lugar na “Casa da Luz”, no Funchal.

A última exposição de António Aragão antes da sua morte, ocorreu no Museu de Arte Contemporânea da Madeira (Forte de São Tiago, Funchal).

Depois do seu falecimento, António Aragão foi lembrado em diversas exposições colectivas que tiveram lugar em diversos Países, e numa grande exposição individual na sua terra natal (Madeira), organizada pela Galeria dos Prazeres em 2010, que preencheu ambas as salas desta Galeria de Arte em Fevereiro e Março desse ano.

A família de António Aragão doou ao Arquivo Regional da Madeira grande parte do seu Espólio Histórico.

Em Fevereiro de 2015, a Câmara Municipal do Funchal anunciou publicamente que iria criar um Museu sobre António Aragão, com numerosas Obras adquiridas do seu preciosíssimo Espólio Artístico.

No dia 1 de Julho de 2015, o Governo Regional da Madeira atribuiu a António Aragão, a título póstumo, a Insígnia Autonómica de Distinção - Cordão.

Contudo, o Estado Português nunca teve nenhum gesto de reconhecimento para com a Vida e a Obra de António Aragão, o que se entende dever-se ao carácter profundamente anti-nacionalista da sua Obra, bem como à ascendência familiar de António Aragão com Nobres Espanhóis que desempenharam cargos de chefia na Madeira aquando da União Ibérica.


«António Aragão é uma das grandes figuras da Cultura portuguesa do século XX. É dele, por exemplo, o motivo da fachada da Escola Francisco Franco, tendo deixado ainda magníficas cerâmicas - isto para além de ter sido um grande Historiador, sendo de salientar o seu grande trabalho como Director do Arquivo Regional da Madeira na década de setenta.»

Rui Carita, Professor Catedrático de História e Coronel do Exército Português.