30 abril 2010

Poema encontrado, de António Aragão


Poema encontrado, de António Aragão;
publicado no 1º Caderno Antológico da Poesia Experimental Portuguesa, organizado por António Aragão e Herberto Helder, Cadernos de Hoje, Lisboa, 1964.

12 abril 2010

Os monstros - um retrato da hipocrisia da sociedade


"Ao pensar no cash-flow"
António Aragão
Técnica mista 50cmx65cm 1992




Deslumbramento com António Aragão...


Por serem trabalhos com alma fortíssima a série “monstros” é a pedra luxuosa da exposição. O deslumbramento resulta dos tons e luz forte, da informação transmitida pelos fragmentos de jornais colados e da forma das figuras semi-humanas que não assustam; têm até aspecto pitoresco (será porque os monstros estejam do lado de cá da obra?).

A interpretação talvez seja abusiva, mas pretende introduzir a componente provocatória do trabalho de António Aragão. De facto, a par do seu lado institucional (foi Director do Arquivo Regional da Madeira, experiência sobre a qual não tinha particular prazer em falar), do espírito científico e pragmático, António Aragão foi um assumido provocador de esquerda.

As duas facetas estão de resto presentes nos trabalhos expostos na Galeria dos Prazeres. A etnográfica, nas aguarelas realizadas na década de 1960 expostas na sala mais pequena, as quais retratam motivos da tradição madeirense, quadros sociais relacionados com a vinicultura, com a pesca e com o fenómeno religioso. E o confronto, como perspectiva de crítica à hipocrisia das sociedades humanas, oferecido pela série “monstros”, concebida na década de 1990 [na sala maior].

Esta exposição proporciona ainda a possibilidade de se assistir ao documentário assinado por Luís Tranquada, encomenda da Galeria para esta ocasião. Num registo despojado, o autor captou os testemunhos de Jorge Marques da Silva, António Rodrigues, Rigo e António Dantas sobre diferentes dimensões do intelectual e artista com o qual partilharam algumas experiências: as de historiador, escritor, dinamizador do Cine Clube e a de um homem polémico e voltado para o futuro. Depoimentos que relevam a pessoa desassossegada, multifacetada, criativa e com gosto particular pelo novo tanto que, como refere Jorge Marques da Silva a propósito da literatura, António Aragão aniquilava as estruturas para substitui-las por outras e criar novas formas, nova linguagem, novas palavras, como acontece no muitíssimo bom “Um buraco na boca”, editado em 1971 [romance].

Face à importância do percurso multifacetado de António Aragão, mas principalmente porque é possível ver a impressionante série “monstros” esta é uma exposição imperdível, até porque não será de espantar que haja cada vez menos oportunidades de ver os trabalhos desta série expostos em conjunto.


César Rodrigues, Director da Paralelo 33 - magazine de ideias, cultura e lazer.

10 abril 2010

António Aragão pelo olhar do Prof. Rui Carita



"A viagem antes da alegria"
António Aragão
Técnica mista 70cmx100cm 1992





«António Aragão é uma das grandes figuras da Cultura portuguesa do século XX. É dele, por exemplo, o motivo da fachada da Escola Francisco Franco, tendo deixado ainda magníficas cerâmicas - isto para além de ter sido um grande Historiador, sendo de salientar o seu grande trabalho como Director do Arquivo Regional da Madeira na década de setenta.»

Rui Carita, Professor Catedrático de História e Coronel do Exército Português.

António Aragão pelo olhar do Prof. Fernando Aguiar


"A outra nau catrineta"
António Aragão
Técnica mista 100cmx70cm 1992




«Falecido no dia 11 de Agosto [2008] no Funchal, António Aragão foi um dos precursores da Poesia Experimental em Portugal no início dos anos 60, e da electrografia durante os anos 80, seguido por um grupo de artistas como António Nelos, António Dantas e César Figueiredo, entre outros, que realizaram um importante trabalho nessa área, tendo sido o seu principal teorizador.

Como poeta experimental António Aragão teve uma importância fundamental na criação deste movimento, juntamente com Ana Hatherly, E.M. de Melo e Castro, Salette Tavares, e José-Alberto Marques, estando na origem das revistas “Poesia Experimental 1 e 2” (1964 e 1966), “Operação” (1967), Suplemento do “Jornal do Fundão” (1965) e da “Hidra 2” (1969).

Foi igualmente um dos autores do primeiro happening realizado em Portugal, “Concerto e Audição Pictórica”, juntamente com E. M. de Melo e Castro, Jorge Peixinho, Salette Tavares, Manuel Baptista, Clotilde Rosa e Mário Falcão, em 1965.

Como escritor, António Aragão publicou “Um Buraco na Boca” (1971), o primeiro romance experimental editado em Portugal, e alguns livros de poesia como “Folhema 1” e “Folhema 2”, ambos de 1966, “Os Bancos” (1975) e “Metanemas” (1981).

Em 1968 publicou “mais exacta mente p(r)o(bl)emas”, que foi o livro que fez despertar o interesse pela poesia experimental, e é um dos livros fundamentais na minha formação como poeta visual conforme referi várias vezes, incluindo num Congresso na Cidade do México em que ambos participámos. Transcrevo o final do prefácio do meu livro “Os olhos que o nosso olhar não vê” : “Para o António Aragão uma saudação muito especial porque, com o livro “MAIS EXACTA MENTE P(R)O(BL)EMAS”, comprado num alfarrabista aos 16 anos (juntamente com “POEMAS POSSÍVEIS” de um poeta então desconhecido e hoje Nobel da literatura) me levou irremediavelmente para esta forma de expressão poética.”
A obra do António Aragão ainda não foi estudada convenientemente para que lhe seja dado o destaque que merece na poesia contemporânea em Portugal.

Sempre tive uma enorme admiração e amizade pelo Aragão que participou em mais de três dezenas de actividades organizadas por mim entre Exposições, Festivais, Antologias poéticas e colectâneas de poesia experimental portuguesa publicadas em várias revistas internacionais, e prefiro deixar aqui algumas imagens inéditas deste importante criador e amigo.» [ver Links Recomendados: Fernando Aguiar - O contrário do tempo]
Fernando Aguiar, Professor e Artista.

09 abril 2010

António Aragão pelo olhar do Prof. Jorge Marques da Silva


"Agora é suspeito haver rosas"
António Aragão
Técnica mista 100cmx70cm 1992



«Muitas poucas vezes se encontra um personagem com uma actividade tão dispersa, tão rica, tão generalizada e utopicamente tão profissionalmente especializada. Recria a história estudando com meticulosidade o passado; luta pela garantia da sua permanência através de um restauro cientificamente aplicado; lê a realidade do presente, compreende-a e explica-a perscrutando num experimentalismo de vanguarda as metas do futuro forja, na solidão da ilha novos caminhos que são do mundo.

Historiador, restaurador, romancista, museólogo, etnógrafo, pintor, escultor ou poeta, escapa a toda a tentativa de exacta catalogação.

Publicou livros sobre a História da Madeira e possui outros por publicar ou em vias de acabamento; estudou em Paris e em Roma como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian; realizou estudos histórico - urbanísticos, incluso a inventariação - classificação da cidade do Funchal e do Porto Santo e os inventários artísticos de parte da Madeira - Concelhos da Calheta, Ponta do Sol, Ribeira Brava e Câmara de Lobos - ( a pedido de entidades oficiais especializadas), os quais aguardam publicação, assim como iniciou a recolha de grande parte do folclore e etnografia da Madeira e Porto Santo.

Não é o especialista do nosso século que aprofunda o conhecimento restrito da realidade, tem uma visão sincopada da vida; não é o enciclopedista que na sua dispersão não aprofunda a verdade; não é o filósofo que absorvido pela ginástica mental esquece o carácter material da vida. È de tudo um pouco mas muito de tudo.

Esta complexidade gera o mito. A figura de António Aragão envolve-se nas dúvidas do mistério quando, em círculos fechados, alta noite, se volta a perguntar: mas afinal quem é o Aragão?

Conhecido e enaltecido em meios culturais estrangeiros, antologiado em diversas publicações nacionais e estrangeiras, raramente as suas actividades tornaram a forma de caixa alta nas páginas dos jornais da Ilha. É um desconhecido na Ilha que conhece.»


Professor Jorge Marques da Silva. in Catálogo da exposição retrospectiva de pintura de António Aragão (1957-1965).

08 abril 2010

Vida e Obra de António Aragão




Pintor, escultor, Historiador, investigador, escritor e poeta, António Aragão foi um dos maiores vultos da Cultura portuguesa, do século passado até aos dias da sua morte física, acontecida em 2008.

António Manuel de Sousa Aragão Mendes Correia nasceu em Portugal, na ilha da Madeira, em S. Vicente, a 21 de Setembro de 1921. Faleceu no Funchal a 11 de Agosto de 2008. Cedo quebrou as barreiras do isolamento geográfico para alcandorar-se aos palcos académicos e depois ganhar, com elevado mérito, estética, arte e técnica, um lugar de vanguarda na Cultura portuguesa.

Licenciado em Ciências Históricas e Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e em Biblioteconomia e Arquivismo pela Universidade de Coimbra. Estudou Etnografia e Museologia em Paris, sob a orientação do Director do Conselho Internacional de Museus da UNESCO. Cursou no Instituto Central de Restauro de Roma, onde se especializou em restauro de obras de Arte e estagiou no laboratório de restauro do Vaticano. Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris e Roma.

Homem de criatividade rica, irrequieto, polémico, inconformado, por vezes excêntrico até, deixou a sua marca pessoal indelével por onde passou. Era difícil não dar por ele quando metia mãos à obra, quer fosse na investigação da história e da etnografia, quer quando esculpia, pintava ou escrevia. A proporção do acervo que legou a Portugal, e em particular à Madeira, é muito mais rico, em quantidade e qualidade, do que o reconhecimento e merecimento que devia ter recebido da região e do país. Desse ponto de vista, ainda está por fazer-se a verdadeira homenagem a António Aragão, apesar de, ainda em vida e num gesto essencial, ter recebido da Cãmara Municipal do Funchal uma rua da cidade com o seu nome.

Foi Director do Arquivo Regional da Madeira, e também Director do Museu da Quinta das Cruzes (Funchal). Era irmão de Ruth Aragão de Carvalho, falecida esposa do actor Ruy de Carvalho. É pai de Marcos Aragão Correia, conhecido Advogado, Activista e Autor.

Como investigador da História da Madeira, publicou: Os Pelourinhos da Madeira. Funchal. 1959; O Museu da Quinta das Cruzes. Funchal, 1970; Para a História do Funchal - Pequenos passos da sua memória. Fx. 1979; A Madeira vista por estrangeiros, 1455-1700. Funchal. 1981; As armas da cidade do Funchal no curso da sua história. Funchal. 1984; Para a história do Funchal - 2ª Edição revista e aumentada. Funchal. 1987; O espírito do lugar. A cidade do Funchal. Lisboa. 1992.

Dos estudos realizados destaca-se as escavações no lugar do Aeroporto, onde se erguia antes o Convento quinhentista de Nª Sra da Piedade, Santa Cruz, 1961.

Das escavações feitas resultou o levantamento da planta geral deste Convento Franciscano e o estudo das suas características tipológicas, além da exumação de variado espólio, do qual se destaca grande diversidade de padrões de azulejaria hispano-mourisca ou mudéjar, proveniente do Sul de Espanha, e também múltiplos exemplares de azulejaria portuguesa seiscentista e de setecentos, assim como elementos primitivos em cantaria lavrada – portais do convento, janelas, arco triunfal da igreja, condutas de águas, lajes tumulares, pavimentos, hoje depositado nos jardins da Qta Revoredo, Casa da Cultura de Santa Cruz.

Todos os trabalhos foram devidamente documentados com plantas rigorosas, desenhos e fotografias. Este trabalho encomendado pela Junta Geral do Distrito do Funchal foi entregue nesta Instituição e, por sua vez, na época, depositado, em parte, no Museu Quinta das Cruzes.

Na área da etnografia efectuou recolhas ao nível da música tradicional da Madeira e do Porto Santo, em 1973, em co-autoria com o professor e músico Artur Andrade, com divulgação em 2 discos L.P.,em 1984.

Na área da literatura participou em acções colectivas, antologias, e outras manifestações significativas: Poesia experimental, 1964 e 1965. (revista de que é co-fundador); Visopoemas, 1965; Ortofonias (com E.M. Melo e Castro), 1965; Operação I. 1967; Hidra I. 1968; Hidra 2. 1969; Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa. 1971; Antologia da Poesia Concreta em Portugal. 1973; Antologia da Poesia Visual Europeia. 1976; Antologia da Poesia Portuguesa. 1940-1977. 1979; Antologia da Poesia Surrealista em Portugal; OVO/POVO. 1978. Lisboa e 1980, Coimbra; PO.EX. 80. Galeria Nacional de Arte Moderna, Lisboa, 1980 e 1981; Filigrama. (Revista de expansão internacional). Co-fundador. 1981, Funchal; Líricas portuguesas. Antologia. 1983; Poemografias. 1985; I Festival Internacional Poesia Viva. 1987, Figueira da Foz; Poesia: outras escritas, Novos suportes. 1988, Setúbal; Electroarte. Vala Comum. Lisboa. 1994.

A nível internacional realça-se a sua participação em Sevilha, 1980; em 1982, Itália e Brasil; 1983, Cuenca; 1984, Comuna de Milão, Itália; 1984, São Francisco, U.S.A. e Bacelona; 1985, Israel e New York; 1986, México e Sevilha; 1987, México e França; 1989, Itália e Paris; 1990, Siegen, Alemanha, México e Washington. U.S.A.; e 1992, Madrid.

Colaborou em diversas manifestações de Mail-Art and Exchange, divulgando os seus trabalhos em revistas da especialidade.

Escreveu no Comércio do Funchal; Línea Sud. Nápoles; Letras e Artes. Lisboa; Express; Colóquio-Artes/Fundação C. Gulbenkian; Diário de Notícias, Lisboa; Comercio do Porto; Espaço Arte. I.S.A.P.M. e DN-Funchal.

Na ficção destaque para: Romance de Izmorfismo, 1964; Um buraco na boca, 1971; Os 3 Farros (com Alberto Pimenta), 1984; Textos do Apocalipse, 1992.

Na área da poesia referência para: Poema primeiro, 1962; Folhema I e Folhema 2, 1966; Mais excta mente p(r)o(bl)emas, 1968; Poema azul e branco, 1971. Os Bancos, 1975; Poesia espacial POVO/OVO (áudio-visual), 1977; Matenemas, 1981; Pátria, Couves, deus, etc, com Tesão, Política, Detergentes, etc, 1993; Joyciaba. In Joycina, 1982.

Para teatro escreveu o Desastre NU, em 1980, que foi Prémio Nacional.

Como artista plástico destacou-se tanto na pintura como na escultura. Na área da escultura realce para a Santa Ana, em cantaria rija, na Câmara Municipal de Santana, 1959; o Padrão / monumento alusivo ao V centenário da morte do Infante D. Henrique (vulgo “Pau de Sabão”), escultura em cantaria rija, integrada no projecto do arquitecto Chorão Ramalho, Porto Santo, 1960; Baixos–relevos, 2 painéis em cerâmica policroma, alusivos á faina marítima e à actividade agrícola. Mercado Municipal de Santa Cruz. 1962.

Na área da pintura tornou-se conhecido desde a década de 40, pelas diversas temáticas abordadas e exploração de técnicas diferenciadas. Realizou várias exposições em Portugal (Galeria Divulgação, Quadrante, Galeria III, Galeria Diferença, Fundação Calouste Gubenkian – II Exposição de Pintura Portuguesa) e no estrangeiro – Espanha (Madrid, Sevilha, Barcelona); México, França (Paris); Itália (Roma e Turim) encontrando-se representado em colecções particulares e oficiais em vários países, nomeadamente na Fundação Serralves, em Portugal.

António Aragão concretizou um projecto artístico contemporâneo baseado em novas tecnologias, numa casa que lhe pertenceu, situada na Lapa, em Lisboa. O projecto enquadrava uma "associação de educação popular" com uma galeria de arte vanguardista, ao qual foi atribuído o MECENATO pela Secretaria de Estado da Cultura.

Antes da doença prolongada de que padeceu até à sua morte, António Aragão, de volta ao Funchal, pintou os seus últimos quadros, que constituiram uma série à qual intitulou "os monstros", uma verdadeira crítica corrosiva à hipocrisia dominante na sociedade.

As últimas exposições individuais de António Aragão foram realizadas na Madeira.

Comissariadas por António Rodrigues, a antepenúltima, em Abril de 1996, na Casa da Cultura de Santa Cruz, integrou 16 dos seus últimos quadros, e ainda uma selecção retrospectiva de 13 trabalhos, em diferentes técnicas, realizados nas décadas de 50 e 60 do século XX. A penúltima, Exposição Retrospectiva, teve lugar na “Casa da Luz”, no Funchal.

A última exposição de António Aragão antes da sua morte, ocorreu no Museu de Arte Contemporânea da Madeira (Forte de S. Tiago, Funchal).

A família de António Aragão doou ao Arquivo Regional da Madeira grande parte do seu espólio histórico.





«Muitos poemas, sobretudo os primeiros, foram bastante influenciados pela obra do António Aragão, o primeiro poeta experimental que descobri e cujo trabalho me fascinou ao ponto de aos 16 anos começar a criar também poemas “visuais”.»

Fernando Aguiar, Professor e Artista.



«António Aragão é uma das grandes figuras da Cultura portuguesa do século XX. É dele, por exemplo, o motivo da fachada da Escola Francisco Franco, tendo deixado ainda magníficas cerâmicas - isto para além de ter sido um grande Historiador, sendo de salientar o seu grande trabalho como Director do Arquivo Regional da Madeira na década de setenta.»

Rui Carita, Professor Catedrático de História e Coronel do Exército Português.



«António Aragão com toda a justiça foi reconhecido, publicamente, pela Câmara Municipal do Funchal, como sendo um dos mais importantes homens da Cultura e das letras madeirense.»

Rui Nepomuceno, Advogado, Historiador, Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.